5. GERAL 29.8.12

1. GENTE
2. ESPECIAL  PARA SOLTAR A LNGUA
3. SADE  NO  S A ME
4. SADE  TUDO PARADO
5. PR-SAL  VIDEOGAME A SRIO
6. CRIME  LIVRES PARA O TRFICO
7. NEGCIOS  UM BANHO DE LOJA NO INTERIOR
8. CINCIA  BEM PREPARADOS. E AGORA?
9. GUSTAVO IOSCHPE  O SUICDIO ASSISTIDO DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS E O BOLETIM COLORIDO DA EDUCAO BSICA
10. DROGAS  A COCANA NO LIMITE
11. MEMRIA  HERI DO CINEMA VELOZ
12. VIDA DIGITAL  JOGO BOBO TEM VIDA CURTA

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Mariana Amaro e Marlia Leoni

NOBRES COLEGAS, ATENTAI PARA AS ALGEMAS
Uns certos senhores de Braslia podem comear a tremer. A ex-assessora parlamentar DENISE ROCHA, 29, no s acaba de posar para a PLAYBOY  de algemas, couro e chicotinho  como est cheinha de boas intenes: Agora eu vou para a linha de frente. Tenho muita coisa para denunciar que a sociedade precisa saber. A advogada ainda est muito mal e  base de remdios por ter sido demitida do gabinete do senador Ciro Nogueira depois que um vdeo privado de lelel vazou na internet. Eu s aceitei posar nua porque fiquei desempregada e tenho contas para pagar, lamuria-se. Condodos, parlamentares de corao abnegado tm ligado para ela, oferecendo solidariedade e emprego. Eles sabem do meu carter, orgulha-se Denise.

ESCONDIDO D MAIS GOSTO
PEL sabe guardar segredos, como a sua participao na festa de encerramento da Olimpada, mantida em estrito sigilo. No roteiro que os bailarinos e cantores receberam para ensaiar as coreografias, o nome de Pel vinha substitudo por The Artist. S dez pessoas da produo inteira sabiam que ele era o artista, conta a cengrafa Daniela Thomas, uma das responsveis pelo show. Nem ao jogo do Brasil contra o Mxico ele foi para no estragar a surpresa.  com a mesma habilidade de levar uma vida pblica e retrancar na particular que ele trata seu relacionamento com a empresria MARCIA CIBELE AOKI, 39. Os dois passaram o rveillon juntos, na casa dele do Guaruj, e s agora comeam cautelosamente a aparecer em pblico.

O PRNCIPE FICOU NUMA SINUCA
Um debate real, e algo surreal, varre o mundo desde a semana passada: o prncipe HARRY agiu mal por ser fotografado nu na farra em Las Vegas ou estava se comportando apenas como um rapaz normal de 27 anos? Nos foros virtuais, uma grande maioria se inclina pela segunda opo. O problema  que, apesar da simpatia natural, Harry  tudo menos um rapaz normal. Mesmo baladeiro, ele se tornou uma pea importante na campanha de reposicionamento de imagem da famlia real promovida por seu pai, o prncipe Charles, o pouco popular herdeiro do trono, e pela estimadssima vov Elizabeth II. Strip-sinuca e uma festa com uma proporo de 1,5 garota para cada rapaz no o deixaram numa posio confortvel para representar a realeza.

ASSIM VOC MATA O PAPAI
O fenomenal corpo da bailarina ALINE DE BARROS, 32, j saltitou nos palcos do programa do Fausto e de Zorra Total. Mas, em sua ltima apario na TV, Aline ultrapassou novas fronteiras: ela foi dubl de Isis Valverde nas cenas em que Suelen, de Avenida Brasil, posava nua para uma revista.  O rosto que aparecia era o dela, mas o corpo era meu. Achei minhas costas iguaizinhas s dela: bem fininhas, diz Aline, que usou um aplique de cabelos na gravao. Casada com outro dubl, que j encarnou os atores Ricardo Tozzi e caio Castro, Aline projeta seu poder com trs horas de bal por semana, outras trs de dana contempornea.  Mas duas de musculao todo abenoado dia.


2. ESPECIAL  PARA SOLTAR A LNGUA
Aprender ingls depois de adulto d um pouco mais de trabalho, mas a sensao de vitria  maior ainda. E deixar de passar vexame no tem preo
DOLORES OROSCO

     A hora da verdade, quando o estmago embrulha, o ar falta e as palavras simplesmente desaparecem, bate para todo mundo. Para cada um de ns, ler e falar em ingls pode ser fcil, difcil ou impossvel, mas inevitavelmente haver algum tropeo. H os casos caricaturais, como o dos brasileiros que passam alguns constrangedores momentos puxando a porta onde est escrito push (empurrar). Ou o dos que demoraram algum tempo at descobrir que o comando copy and paste dos computadores (copiar e colar) no significava que o texto reproduzido deveria ser colocado numa pasta, que dir empastelado. Uma palavra parecida s vezes desencadeia a sndrome do pnico lingustico no prprio corredor do avio, onde uma mulher de gestos imperativos pergunta Meat or pasta?. Em situaes normais, sem aquele sotaque que parece falado em klingon, a lngua fictcia de Jornada nas Estrelas, muitas pessoas at entenderiam que esto sendo instadas a escolher entre carne ou massa. Mas o branco engole tudo, inclusive um prato que  o oposto do que se pretendia comer. A comear pela histria do bailarino Thiago Soares, na foto ao lado, que no comeo da carreira em Londres cumprimentou a rainha Ehzabeth II com um excessivamente descontrado oi, nas pginas desta reportagem h casos engraados de erros provocados pelo desconhecimento do idioma, mas acima de tudo o que muitas pessoas esto fazendo para aprender ingls depois de adultas e como isso melhora a vida delas.
     O ensino do ingls  notoriamente deficiente no Brasil. Na escola pblica, aprende-se pouco ou nada. Muitos colgios particulares resolveram a questo com uma terceirizao bancada pelos pais por meio de cursos independentes. Nem todos eles garantem a fluncia plena e, cientes de que no saber ingls equivale a uma sentena de imobilidade profissional para os filhos, muitos pais se sacrificam para mand-los ao exterior para fazer intercmbio ou estudar o idioma in loco. Aprender um idioma estrangeiro demanda realmente tempo, investimento e estudo. Os que desistiram, alegando inconsistncias como lngua travada, hoje tm mais oportunidades de recuperar o tempo perdido, desde viagens nas quais a famlia inteira aprimora o ingls at cursos on-line voltados para atividades especficas, que podem no ensinar a ler Shakespeare, mas contribuem efetivamente para melhorar no campo em que a falta de domnio da lngua mais pesa, o bolso. Posso estudar de madrugada, meu horrio livre, e aprendi a fechar negcios com clientes estrangeiros por e-mail, o principal meio de comunicao na minha profisso, explica Wesley Silva, de 34 anos, que tem uma atividade sem traduo em portugus   webdesigner. Ele perdia um cliente atrs do outro por no entender o que eles queriam. Aprendeu, por exemplo, que, quando algum pede para resolver um problema num site, usa o verbo to fix, e isso no quer dizer fixar alguma coisa. At a saudao final nas mensagens  importante, sabe Wesley, depois de aprender que no se mandam hugs, os corriqueiros abraos entre brasileiros, que soam estranhos e at ameaadores a estrangeiros.
     O ingls foi disseminado mundo afora pelo colonialismo britnico e pela extraordinria expanso econmica dos Estados Unidos. Voltado para dentro em seu magnfico isolamento, o Brasil ficou  margem de grande parte desses processos. A lngua franca das elites ilustradas ou endinheiradas continuou a ser o francs mesmo bem depois de seu apogeu; os educacionalmente menos privilegiados demoraram a se dar conta do maior de todos os incentivos, o autointeresse em aprender ingls para melhorar no trabalho e nos negcios. Nem se fala da impotncia, indiferena ou at hostilidade das autoridades responsveis pelo ensino pblico, que a certa altura inventaram que o ensino do espanhol seria alternativa ao do ingls. Saber espanhol  desejvel, louvvel e til (isso se acreditarmos que o idioma  realmente ensinado). Mas prestar servios a um indonsio, fechar um contrato com um indiano ou hospedar um sueco so atividades possveis apenas em ingls, e assim continuar sendo por muito tempo. Em nvel planetrio, nos prximos dez anos mais de 2 bilhes de pessoas procuraro um curso de ingls. No Brasil, cerca de 10,5 milhes de pessoas falam ingls, o que corresponde a pouco mais de 5% da populao, segundo levantamento do British Council, o rgo de disseminao de cultura e negcios do governo britnico. Dentro desse nmero j pequeno, s 20% se comunicam bem. A maioria, 43%, tem uma noo inicial do idioma e 37% conseguem estabelecer uma conversa, mas com muita dificuldade no vocabulrio e na compreenso, diz a sua diretora, Virginia Maria Garcia. Num teste recente feito pela empresa de intercmbios GlobalEnglish com 108.000 funcionrios de multinacionais de 76 pases, os 13.000 brasileiros analisados atingiram a nota 2,95 num total possvel de 10 pontos (veja o quadro ao lado).
     Quem fala ingls bem pode ganhar de 30% a 50% a mais do que quem tem qualificaes equivalentes, mas no o domnio do idioma. Entre as empresas internacionais, 70% procuram funcionrios que falem ingls. Os prprios profissionais fazem uma avaliao mais rigorosa ainda: 92% acham que o ingls  importante para a carreira. Aprender um idioma na fase adulta da vida  menos automtico do que na idade escolar. O ideal  a criana ter contato desde os 6 anos, quando j est praticamente alfabetizada na lngua materna. Nessa idade, ela tem o crebro mais plstico e aberto para a absoro de um segundo idioma, explica Jos de Almeida Filho, professor de teoria do ensino de lnguas na Universidade de Braslia. A habilidade para absorver uma nova lngua atinge o pico entre 8 e 12 anos. Depois disso, o processo  de refluxo. Como j no est mais imerso no ambiente da escola, o adulto perde muitas de suas ferramentas de assimilao. Para alguns,  chato, por exemplo, ler textos fazendo setinhas e usar canetas diferentes para sublinhar palavras, diz Lizika Goldchleger, gerente acadmica da Cultura Inglesa. O estudante mais velho j  um profissional respeitado. A ltima vez que se submeteu totalmente ao professor foi muitos anos antes, e isso o deixa em uma situao quase defensiva. Em compensao, o adulto sabe perfeitamente por que precisa aprender ingls e  capaz de avaliar melhor custos e benefcios. As dificuldades etrias, histricas e culturais para o aprendizado de ingls hoje tambm so mais bem compreendidas. Ana Gabriela Pessoa, mestre em polticas educacionais pela Universidade Harvard, desenvolveu um curso de ingls para adultos, feito atravs de internet e celular, justamente para compensar alguns desses obstculos. O curso no  dado 100% em ingls. O adulto que no sabe nada da lngua precisa fazer associaes com o portugus para no se sentir desmotivado, diz Ana Gabriela. Alm disso, o software do curso dirige o aluno automaticamente para aulas especficas sobre a profisso dele. Temos muitos alunos que so garons, vendedores e secretrias. Muitos perceberam a oportunidade dos prximos grandes eventos, a Copa de 2014 e a Olimpada de 2016, que traro 980.000 estrangeiros a um pas desesperadamente carente de pessoas que falem ingls.
     De forma geral, os especialistas recomendam duas aulas semanais com durao de duas horas cada uma, complementadas com mais duas em casa  que podem ser de exerccios, leitura ou at vendo filmes sem legenda. Nesse ritmo, sem intensivos nem viagens complementares, um adulto leva dois anos para falar um ingls intermedirio e quatro para um avanado. D um total aproximado de 750 horas-aula. S para comparar: o mandarim falado pela maioria dos chineses, considerado com certo exagero a linguagem do futuro, exige no mnimo 2200 horas, das quais a metade em territrio nativo. Os prprios chineses se dedicam de forma avassaladora ao estudo do ingls, includo desde o fim dos anos 80 em um exame chins parecido com o Enem  que s passou a ter ingls em 2010. No vestibular chins, o Gao Kao, o ingls tem peso de 25% entre as provas totais. A partir dos 7 anos, o aluno estuda at seis horas semanais de ingls e, na juventude, essa carga horria chega a dez horas, diz Jiang Shixue, professor da Academia Chinesa de Cincias Sociais. Aprender ingls  da mesma forma que mandarim, espanhol, russo ou dinamarqus  evidentemente tem um valor mais do que utilitrio. O aprendizado de uma lngua  uma jornada para a vida toda, cheia de desafios e recompensas. A diversidade do vocabulrio e o sintetismo do idioma ingls combinam-se de maneiras que as melhores tradues no conseguem abranger totalmente. Nada substitui a pureza quase bblica da frase inicial do livro O Hobbit, com que J.R.R. Tolkien iniciou a saga que se transformaria em O Senhor dos Anis: In a hole in the ground there lived a hobbit, sobre o modesto e pequeno ser que vivia numa toca. Ou a perfeio quase inatingvel de John Keats no clssico poema sobre a eternidade da beleza: A thing of beauty is a joy for ever. / Its loveliness increases; it will never / pass into nothingness. Mas tambm j alivia muito apenas poder escolher entre a carne e a massa oferecidas pela comissria de bordo, embora no fim o gosto seja notavelmente parecido.

FIM DA FILA
Estudantes e profissionais brasileiros tm desempenho ruim em avaliaes internacionais sobre o conhecimento da lngua inglesa
 Num estudo feito com 76 pases fora da linha de frente do ensino avanado do ingls aplicado no mundo dos negcios, o Brasil ficou em 67 lugar; a nota mdia, em uma escala de zero a 10, foi de 2,95.
 O Brasil perdeu feio para Brics como ndia (nota 5,6). China (4,4) e Rssia (3,6)
 Entre os estudantes pesquisados em 44 pases, os brasileiros ficaram na 31 posio. Perderam para os de cinco pases latino-americanos avaliados: Argentina, Mxico, Costa Rica, Guatemala e El Salvador
 Os quatro pases com pontuao mais alta so Noruega, Holanda, Dinamarca e Sucia. Neles, o ensino do ingls como primeira lngua estrangeira para 100% dos alunos foi implantado entre 1982 e 2000.
 Exagerar na avaliao prpria da fluncia do ingls no currculo profissional  um vcio global; entre os profissionais brasileiros, o ndice chega a 46%.
Fontes: GlobalEnglish, Education First e Robert Half.

FEIOS, FALSOS E MALVADOS
Palavras que soam quase idnticas, mas tm significado bem diferente em portugus e ingls, constituem uma das maiores armadilhas idiomticas. As pegadinhas mais comuns desses falsos cognatos so:

PORTUGUS: Eu pretendo ser piloto
ERRADO: I *pretend* to be a pilot
Significado real: *Fingir*
CERTO: I *intend* to be a pilot

PORTUGUS: Atualmente muitas pessoas se comunicam por e-mail
ERRADO: *Actually* many people communicate via e-mail
Significado real: *Na verdade*
CERTO: *Currently* many people communicate via e-mail

PORTUGUS: Ela  muito simptica
ERRADO: She is very *sympathetic*
Significado real: *Solidria*
CERTO: She is very *nice*

PORTUGUS: Eu eventualmente vou ao cinema
ERRADO: I *eventually* go to the cinema
Significado real: *No fim*
CERTO: I *sometimes* go to the cinema

PORTUGUS: Ele  um homem muito sensvel
ERRADO: He is a very *sensible* man
Significado real: *Sensato*
CERTO: He is a very *sensitive* man

PORTUGUS: Puxe para abrir
ERRADO: *Push* to open
Significado real: *Empurre*
CERTO: *Pull* to open

PORTUGUS: Vamos fazer uma parada para o lanche?
ERRADO: Shall we have a break for *lunch*?
Significado real: *Almoo*
CERTO: Shall we have a break for a *snack*?

PORTUGUS: Eu dou aulas particulares
ERRADO: I give *particular* lessons
Significado real: *Especficas*
CERTO: I give *private* lessons

PORTUGUS: Eu vou  academia duas vezes por semana
ERRADO: I go to the *academy* twice a week
Significado real: *Instituio de ensino superior*
CERTO: I go to the *gym* twice a week

PORTUGUS: Que horas  nosso compromisso?
ERRADO: What time is our *compromise*?
Significado real: *Meio-termo*
CERTO: What time is our *appointment*?

NA DVIDA, NO DIGA OI
Foi gigantesco o salto que Thiago Soares, nascido em So Gonalo, no Rio de Janeiro, deu desde as aulas de circo e street dance no Rio para o lugar que ocupa h seis anos: primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres. Mas ele continua a se lembrar do pequeno tropeo lingustico que deu quando havia acabado de fazer o primeiro solo na companhia e ainda mal falava ingls.  A diretora entrou no camarim e disse que a rainha Elizabeth queria conhecer o elenco, recorda.  Levado para o encontro, no entendeu quase nada das palavras nem das regras de protocolo real, como a de no tomar a iniciativa de se dirigir  rainha.  A porta se abriu e ela estava l paradinha. Fiquei to nervoso que estendi a mo e disse Hi. Elizabeth, claro, tirou de letra, mas o bailarino se lembra dos cochichos crticos  sua volta. at hoje sinto calafrios, diz Thiago, que  casado com a bailarina argentina Marianela Nuez, domina o ingls e o espanhol e se acostumou  cerimnia com que se tratam integrantes da famlia real, frequentemente presentes ao bal.

ALGUMA COISA DE POSITIVO 
Muita gente tem alguma histria de erros constrangedores ou engraados ao se expressar em ingls, mas a de Mariana Lancellotti, relaes-pblicas de 32 anos, aconteceu num momento literalmente de emergncia. Ela morava em Londres havia quase dois anos, estudava ingls e trabalhava como garonete. Considerava-se no controle. A sofreu um corte na mo com uma taa quebrada e baixou no hospital. Recebeu pontos, mas notou que no sentia o polegar direito. Por motivos que nunca desvendou, o mdico de planto decidiu oper-la. No conseguia entender que operao era aquela. Trs ou quatro clnicos tentaram me explicar e no adiantou. At hoje Mariana tem insensibilidade no polegar. Mas o ingls ficou timo. Eu me coloco bem nas reunies de negcios com estrangeiros e esmio contratos em ingls.

PODE FICAR COM INVEJA, KATE
My name is Caroline. Im fifteen. Com apenas duas frases decoradas, a modelo gacha Carol Trentini, 25, enfrentou h dez anos os testes para fotos e desfiles quando desembarcou em Nova York. Penou. Cheguei a andar trs horas para achar um lugar a dez minutos do meu apartamento porque no conseguia pedir informaes na rua, relembra. O pior foi enfrentar o temperamental fotgrafo de moda Steven Meisel: Ele me dava instrues simples, como colocar a mo na cintura, e eu no entendia. Sabia que estava com um profissional importante que poderia perder a pacincia a qualquer momento. Carol aprendeu ingls fluente e, embora no precise, tambm tem um fotgrafo  inteira disposio: o catarinense Fabio Bartelt, com quem se casou em maro, usando um vestido do costureiro belga Olivier Theyskens. Parecido e at mais bonito, dizem os especialistas, do que o de Kate Middleton, a futura rainha da Inglaterra, no casamento com o prncipe William.

FAMLIA QUE ESTUDA UNIDA 
Pegar carona no aprendizado de ingls dos filhos e tirar o atraso  uma estratgia que funciona para quem tem recursos e d um duro danado at arranjar o tempo necessrio. Roberto Ali Abdalla, 46 anos, empresrio do ramo de seguros, precisou de muito de tudo isso para passar um ms em Santa Monica, na Califrnia, com a mulher e os quatro filhos. Cursamos a mesma escola. Depois do caf da manh, cada um ia para seu curso, diz Abdalla, que estudou ingls voltado para negcios. A artista plstica Simone concentrou-se em literatura inglesa e o menino mais velho, Thiago, 16, teve aulas de guitarra com um professor americano. Camila, de 14, e os gmeos Lucas e Victor, de 10, fizeram cursos regulares. Durante as tardes, atividades em comum aproximaram a famlia. ramos como aventureiros em terra estrangeira, conta o pai. Eu adquiri mais fluncia e vocabulrio tcnico. E aprendi muito sobre economia americana, nas aulas e in loco, o que  muito importante na minha rea.

QUEM QUISER FALAR COM DEUS
Tem gente que vai aprender ingls para viajar sem problemas, melhorar na carreira ou avanar nos estudos. O corredor Aldemir Gomes, de 20 anos, tem um
objetivo mais especfico: agradecer ao jamaicano Usain Bolt. Aldemir foi o corredor que disputou uma prova classificatria com o deus das pistas na Olimpada de Londres e chegou em segundo lugar. Uma reprter brasileira perguntou a Bolt o que tinha achado do adversrio novato, e o magnnimo campeo elogiou-o pelo esforo e pela dedicao. Mas eu no entendi absolutamente nada, lembra Aldemir. Alm de no entender aquele dolo, eu tambm no conseguia me comunicar com os outros atletas e tinha de pedir tudo por mmica. Aldemir agora pretende fazer um curso de ingls e j sabe a frase que dir a Bolt:  uma honra receber esse elogio de voc.

BY THE WAY, ELE  UM SUCESSO
Sair em 2002 de Mossor, no interior do Rio Grande do Norte, e conseguir um emprego de faxineiro na cozinha do Hotel Renaissance, um dos maiores de So Paulo, foi o comeo de um caminho bem-sucedido para Antonio de Oliveira, hoje com 33 anos. Queria ser garom, mas exigiam noes de ingls. O hotel oferecia um curso e me matriculei nele, conta. Promovido a ajudante de bar, ele resolveu
bancar o prprio aprendizado para ir alm das noes bsicas de atendimento aos hspedes. Chegou a gerente de bar e divisou novas oportunidades de aprimoramento: Os hspedes estrangeiros bebiam um drinque, ficavam soltinhos e queriam bater papo. Era a que eu aproveitava para aprender expresses descoladas como by the way (equivalente a por falar nisso). A frente de uma equipe de 25 funcionrios, ele  hoje supervisor do departamento de alimentos e bebidas do hotel, mas continua com planos. Meu salrio aumentou 200% desde que cheguei aqui, h dez anos. Quero ser gerente-geral.

O FSICO  UM FINGIDOR?
O fato de estar,  poca, desenvolvendo um modelo computacional de clculo para entender os mecanismos proteicos no livrou a pele do biofsico molecular Leandro Cristante de Oliveira num assunto muito mais simples. Convidado a estagiar na Universidade da Califrnia, ele fez algumas aulas de reforo para o ingls fraco e logo na primeira reunio de classe cometeu o engano clssico de trocar o verbo to intend (pretender) por to pretend (fingir): Apresentei minha pesquisa dizendo I pretend to show my research. O pessoal me olhou espantado e um colega perguntou se eu estava maquiando resultados. Durante os trs anos passados em San Diego, fez aulas particulares de ingls e ficou to obcecado em desvendar o idioma que chegava a parar para ouvir pregaes religiosas na rua. Continuo a ver filmes sem legenda e a ler publicaes internacionais para no perder o ingls que conquistei.

CHEQUE AQUI A SUA COMPETNCIA
O professor Jeff Stranks, ingls radicado no Brasil h vinte anos, especialista em transmitir e avaliar o conhecimento de seu idioma, fez para VEJA o seguinte teste
For each question, choose the correct answer a, b, c or d

1. Felipe Massa is a well-known F1 .. .
a) driver 
b) pilot
c) motorist 
d) racer

2. Ive lived here . 10 years.
a) since 
b) from 
c) for
d) to

3. I got to the airport late and . my flight to New York.
a) lost 
b) missed 
c) dropped
d) failed

4. A: its my birthday today! B: Oh! . !
a) Too good
b) Congratulations
c) Happy birthday
d) Much happiness

5. You cant trust him. He never . the truth.
a) says 
b) talks 
c) speaks
d) tells

6. I practise as much as I can, but Im not . a lot of progress.
a) getting 
b) doing 
c) taking
d) making

7. I cant find my glasses anywhere. I . have left them at home.
a) can 
b) ought 
c) must
d) would

8. I dont see her very often but she comes to my house .. .
a) eventually 
b) now and again 
c) finally 
d) at last

9. My sister . her car for a few years now.
a) has 
b) has had
c) is having 
d) had

10. The weather forecast for today: There will be lots of sunny spells, but during the afternoon we might see cloud building up and theres a chance of a shower or two, but thats the exception rather than the rule. Which of these statements is true?
a) There is a small possibility of rain 
b) There is a big possibility of rain
c) It definitely wont rain
d) It will definitely rain

11. A: My best friend is coming to stay with us. B: Really? . ?
a) How long for 
b) How far 
c) Hows that
d) How much time

12. I didnt . driving home after the party since Id had a few drinks.
a) desire 
b) want
c) wish 
d) fancy

13. My nephew . flu last weekend.
a) came apart
b) came down with
e) came across
d) came on

14. I have to . my essay by Friday.
a) hand out 
b) hand off
c) hand in 
d) hand down

15. Oh, Sara, could you . me to phone the dentist this afternoon?
a) remember 
b) recall
c) remind
d) keep in mmd

16. The results should be ready . Friday.
a) until 
b) to 
c) by
d) till

17. I . to do a round-the-world trip next year
a) pretend 
b) intend
c) wish for 
d) long for

18. They won the championship . not scoring many goals. 
a) despite 
b) in spite 
c) although 
d) even though

19. He won gold medals in 5 Olympics in a row, . is almost unheard of.
a) what 
b) that 
c) which
d) who

20. People are very worried that a civil war might . there.
a) come out 
b) go out 
c) start out
d) breakout

21. I wouldnt have eaten at that restaurant if . it was so bad.
a) Id known 
b) I knew 
c) Id know
d) Id have known

22. A lot of people in our industry havent had very diverse experiences. So they dont have enough dots to connect, and they end up with very linear solutions without a broad perspective on the problem. The broader ones understanding of the human experience, the better design we will have. (Steve Jobs) Which of these statements is true, according to Jobs?
a) Companies need people who specialize in specific areas
b) Non-linear solutions originate from people with varied experiences
c) Good design is based on joining dots
d) Working in this industry helps people develop a broad perspective of problems

RESPOSTAS
1. a
2. c
3. b
4. c
5. d
6. d
7. c
8. b
9. b
10. a
11. a
12. d
13. b
14. c
15. c
16. c
17. b
18. a
19. c
20. d
21. a
22. b

QUAL O SEU NVEL? (* Descries baseadas no Quadro Europeu Comum de Referncia para as Lnguas (Common European Framework of Reference for Languages)
DE 1 A 5 RESPOSTAS CORRETAS: nvel pr-intermedirio. Entende frases e expresses usadas frequentemente e provavelmente pode se comunicar de forma simples.

DE 6 A 10 RESPOSTAS CORRETAS: nvel intermedirio. Pode entender os pontos principais do que  falado; provavelmente consegue se comunicar em vrias situaes em viagens e expressar opinies de forma simples.

DE 11 A 16 RESPOSTAS CORRETAS: nvel alto-intermedirio. Compreende as ideias principais de um texto complexo; provavelmente consegue interagir com confiana, espontaneidade e fluncia com falantes nativos da lngua.

DE 17 A 22 RESPOSTAS CORRETAS: nvel avanado. Alm de conseguir compreender uma variedade de textos longos e complexos,  capaz de entender significados implcitos nos textos; provavelmente faz uso fluente e eficaz da lngua nos campos social, acadmico e profissional.

COM REPORTAGEM DE MARLIA LEONI


3. SADE  NO  S A ME
A idade do pai tambm influencia o risco de conceber uma criana portadora de anomalias genticas. A paternidade tardia aumenta a probabilidade de autismo e esquizofrenia.
NATALIA CUMINALE

     Uma mulher que decide engravidar depois dos 40 anos sempre preocupa os mdicos. Desde o incio da dcada de 30, a maternidade tardia est associada a um risco maior de gerar crianas portadoras de anomalias genticas, como a sndrome de Down. Pois bem, na semana passada, um estudo publicado na prestigiosa revista Nature revelou que a idade do pai tambm  determinante para o nascimento de um bebe saudvel. Quanto mais velho for o homem no momento da concepo, maior ser o risco de ele transmitir a seus descendentes novas mutaes genticas associadas ao autismo e  esquizofrenia, distrbios psiquitricos devastadores e relativamente comuns  uma pessoa em cada 88 tem o problema, no primeiro caso; e uma em cada 100, no segundo.
     Coordenado pelo geneticista Kri Stefnsson, diretor da empresa deCODE Genetics, da Islndia, o trabalho publicado pela Nature  a maior e a mais minuciosa investigao j feita sobre o assunto. A partir de exames de sangue, os pesquisadores analisaram o material gentico de 78 famlias. Todas elas eram formadas por pai, me e filho  esse ltimo autista ou esquizofrnico. Stefnsson e sua equipe rastrearam o DNA dos filhos em busca de alteraes genticas que no poderiam ser encontradas nos genes paternos, tampouco nos maternos  o que os geneticistas definem como novas mutaes. Ou seja, variaes genticas que surgem com a concepo. Graas aos avanos nos exames de anlise gentica, foi possvel fazer uma espcie de rvore genealgica dessas novas alteraes e determinar que a imensa maioria delas era transmitida pelo pai. De acordo com o trabalho islands, o sexo masculino repassa, em mdia, quatro vezes mais novas mutaes a seus descendentes do que o feminino. Alm disso, conforme os homens envelhecem, maior  a quantidade de alteraes transmitidas. Aos 20 anos, por exemplo, elas somam 25. Aos 40, chegam a 65 (veja o quadro abaixo). Ou seja, so duas novas variaes a cada ano de vida do homem. No caso das mulheres, o nmero de mutaes mantm-se estvel durante toda a existncia, em torno de catorze.
     A diferena entre os gneros  fruto do funcionamento completamente distinto das clulas sexuais masculinas e femininas. A partir da puberdade, os homens comeam a produzir espermatozoides e no param mais. Nesse ritmo de proliferao celular, o risco de erros no processo de cpia do material gentico aumenta. Por outro lado, as mulheres j nascem com a quantidade de vulos que, at a menopausa, sero fecundados ou descartados. Praticamente no h renovao celular. Com isso, reduz-se consideravelmente o risco de gerao e transmisso de novas mutaes para seus descendentes. Tanto entre os homens quanto entre as mulheres, calcula-se que 97% dessas mutaes sejam benficas ou inofensivas, diz o geneticista Salmo Raskin, pesquisador do Projeto Genoma Humano. Sob o ponto de vista evolucionista, essas alteraes genticas transmitidas de pai e me para filho so essenciais para a variabilidade da espcie  aquilo que faz com que cada DNA seja nico, pessoal e intransfervel. E que nos torna, enfim, diferentes uns dos outros. Os 3% das novas mutaes esto relacionados a doenas, como o autismo e a esquizofrenia.
     Grande parte das mutaes genticas identificadas na pesquisa da deCODE Genetics j havia sido relacionada a esses distrbios. At agora, foram associados 200 genes ao autismo e cinquenta  esquizofrenia.  importante frisar que o estudo publicado na Nature em nenhum momento define a idade paterna como principal responsvel pelo surgimento dessas doenas, diz Guilherme Polanczyk, psiquiatra infantil da Universidade de So Paulo (USP). Apesar das conquistas feitas nos ltimos anos no conhecimento, diagnstico e tratamento dessas doenas, suas causas no foram complemente desvendadas. Alm da gentica, h que levar em conta tambm os fatores ambientais. O autismo e a esquizofrenia continuam a desafiar a medicina.

A MATEMTICA DAS ALTERAES GENTICAS
Quanto mais velho  o homem no momento da concepo, maior  o risco de ele transmitir novas mutaes genticas a seus descendentes  3% dessas alteraes esto associadas a doenas, como autismo e esquizofrenia.
Idade do homem: 20 anos
Nmero de mutaes transmitidas: 25

Idade do homem: 40 anos
Nmero de mutaes transmitidas: 65

POR QUE ISSO OCORRE
A produo de espermatozoides comea na puberdade e no para. Ou seja, as clulas reprodutivas masculinas esto em permanente multiplicao. Nesse ritmo de proliferao celular, aumenta o risco de erros na cpia do material gentico.

Fonte: Salmo Raskin, geneticista e membro do Projeto Genoma Humano


4. SADE  TUDO PARADO
A greve dos servidores federais, que j dura trs meses, prejudica hospitais e pacientes. Dilma reafirma que o governo no vai ceder s presses.

     Posto da Polcia Rodoviria Federal fechado! Passagem livre para trfico de drogas e armas. A frase, escrita por policiais em greve, estampou um cartaz exibido em um dos postos da polcia mais movimentados da Via Dutra, no Rio de Janeiro. A manifestao despropositada  um retrato do caos instalado no pas com a paralisao de metade dos servidores federais. As consequncias do movimento j afetam diretamente a populao e, em especial, os servios de sade. Enquanto drogas e armas esto liberadas medicamentos e produtos cirrgicos so barrados pelos grevistas da Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria. Cerca de 70% dos hospitais foram afetados pela falta de instrumentos cirrgicos e de remdios.
     No Hospital Albert Einstein, em So Paulo, os estoques de kits para a deteco do vrus H1N1, vacinas, cateteres e bisturis esto baixos. Para no comprometer o atendimento, tivemos de recorrer a marcas alternativas e enviar exames para o exterior, diz Carlos Oyama, diretor de logstica do hospital. O tratamento dos pacientes com cncer no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, est sob ameaa devido  falta de remdios. Os primeiros produtos a sofrer o impacto da paralisao so os importados, e os estoques no costumam durar mais de dois meses. Atualmente, h pelo menos 400 pedidos de liberao de medicamentos parados nos aeroportos, diz Antnio Britto, presidente da Interfarma, Associao da Indstria Farmacutica de Pesquisa.
     A greve j dura trs meses. Os servidores afirmam que no voltaro ao trabalho enquanto no receberem uma proposta de aumento do governo. E a presidente Dilma Rousseff avisou que no quer conversa. Considera que, em tempos de crise econmica, no  possvel elevar os salrios dos j bem remunerados servidores. Tambm acha que os sindicatos esto mal-acostumados, j que tiveram tratamento privilegiado no governo Lula. O governo s aceita dar aumentos especficos a categorias que esto com os salrios defasados, como os professores universitrios. Mesmo nesse caso, os aumentos obedecero a alguns critrios  os profissionais mais qualificados sero os mais bem remunerados. Como os sindicalistas nunca engoliram a meritocracia, a oferta continua sem resposta. A presidente acha que nesta semana os movimentos grevistas comearo a refluir, j que ela enviar ao Congresso a proposta de oramento para 2013  e ela no inclui as pretenses dos sindicalistas, que, com isso, perdero poder de presso. No brao de ferro entre o governo e o sindicato, Dilma aposta que tem mais flego.
ADRIANA DIAS LOPES E OTVIO CABRAL


5. PR-SAL  VIDEOGAME A SRIO
Realidade virtual, sensores de movimento e at hologramas manipulados por joystick ensinam os tcnicos que perfuram poos no fundo do mar a prevenir acidentes.
HELENA BORGES

     Isolados em uma sala escura, os lderes da equipe operam uma broca de 100 quilos para perfurar um poo do pr-sal a 4 quilmetros de distncia, no fundo do mar. O sucesso da manobra depende de eles aplicarem a presso certa para que a broca avance pelo subsolo sem deixar que o leo acumulado l embaixo, por entre as rochas, vaze atravs da lama. Com um olho no controle remoto e outro no indicador de presso, os tcnicos prosseguem lentamente. De repente, ouve-se um estalo. Antes que se possa tomar qualquer providncia, o rudo discreto vira uma violenta exploso. Grandes quantidades de leo escapam pela fenda submarina  vista daqueles homens aparvalhados. O furo est perdido. Ser preciso comear tudo de novo. Se fosse real, o erro de clculo representaria um prejuzo de at 40 milhes de dlares, preo da perfurao de um nico poo do pr-sal. Dessa vez, felizmente, foi apenas uma simulao. O alto grau de realismo se fez possvel com o uso de um equipamento de ltima gerao conhecido como Cave (caverna, em ingls). Trata-se do mais novo dos sete aparatos empregados no treinamento dos responsveis pela delicada operao em alto-mar. Para quem observa de fora, parece videogame. Para as petrolferas,  o que a tecnologia oferece de mais valioso para conseguir segurana, eficincia e muita reduo de custo na explorao do petrleo abaixo da camada do pr-sal.
Construdos no Brasil ou importados e adaptados com tecnologia local, os simuladores utilizam uma parafernlia que inclui sensores infravermelhos, culos 3D, supercomputadores, sensores tridimensionais e telas sensveis ao toque. Instalados no centro tecnolgico que o Servio Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) mantm em Benfica, na Zona Norte do Rio de Janeiro, esses aparelhos adestram petroleiros com pelo menos seis meses de experincia em alto-mar para atuar em situaes-limite como exploses, rachaduras, vazamentos, colises e tempestades. Disseminados h dcadas em ramos como aviao e automao, os simuladores passaram a ser usados na indstria do petrleo no incio dos anos 2000. Mais de 4500 tcnicos de petrleo j foram treinados nesses equipamentos  contingente que deve dobrar at que o pr-sal esteja sendo explorado de maneira plena. Fora do Brasil, s existem sete cavernas digitais semelhantes s de Benfica. E, apesar de custarem o dobro (cerca de 10 milhes de reais cada uma), elas no so to completas quanto as brasileiras, que projetam imagens em alta definio e permitem ao tcnico se movimentar pela plataforma. Tudo isso usando um joystick, com o qual tambm se pode mover peas, reparar danos e at afundar embarcaes virtuais. Podemos simular qualquer emergncia, alm de montar e desmontar peas em segundos, diz Sergio Villarreal, coordenador da equipe que desenvolveu o Cave. Em um continer prximo dali, um centro de controle com movimentos, vento e barulhos de mar idnticos aos reais ensina os operadores a manter o lastro da plataforma equilibrado em circunstncias adversas. Outro aparelho, ainda em teste, projetar hologramas de peas, ferramentas e prottipos de novos equipamentos para que os alunos aprendam a manej-los.
     As inovaes nos simuladores do pr-sal so uma mostra de como uma atividade que depende de alta tecnologia pode estimular o investimento em inovao, com repercusses econmicas em outros setores. Companhias de aviao j se interessaram em usar a tecnologia do Cave na formao de seus pilotos. Uma dzia de pequenas empresas trabalha na criao de softwares para imitar situaes especficas das novas plataformas. Pelo menos vinte simuladores esto sendo construdos, dois deles sob medida para o pr-sal. Tudo para minimizar riscos e custos. Afinal, furar um poo na rea do pr-sal custa quatro vezes mais do que em outros campos, e a operao ocorre em locais duas vezes mais distantes e est sujeita a riscos ainda imponderveis. A cada cinco poos perfurados no mundo, um se perde por erros tcnicos. No Brasil, esse ndice caiu para um a cada oito. Com os altos custos no pr-sal, qualquer impercia adquire dimenses ainda maiores, diz o pesquisador da Coppe/UFRJ Gerson Cunha. Resta descobrir se os benefcios dos acertos viro na mesma proporo.


6. CRIME  LIVRES PARA O TRFICO
O STJ determina que jovens menores de 18 anos no podero ser internados se forem pegos vendendo drogas pela primeira vez.

     Traficantes de drogas com menos de 18 anos s podero ser internados depois que tiverem sido pegos ao menos trs vezes cometendo crimes, decidiu o Superior Tribunal de Justia. A corte seguiu  risca um artigo do Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA) e consolidou um entendimento da lei que, na prtica: 1) ameaa despejar milhares de marginais precoces de volta s ruas e 2) aumenta exponencialmente as vantagens, para os traficantes de recrutar adolescentes para o crime. A deciso tem base legal: o ECA determina que a internao de menores de idade s pode acontecer em trs hipteses: se o jovem cometeu infraes graves anteriormente (aqui entram roubo e furto, por exemplo); se ele usou de violncia; ou se descumpriu medida socioeducativa (como trabalho comunitrio). Essa deciso do STJ dever agora orientar os tribunais inferiores quando eles forem julgar casos que envolvam traficantes adolescentes.
     O artigo do ECA tem o bom propsito de s privar os jovens da liberdade em ltimo caso  e, assim, proteg-los do contato nocivo com criminosos reincidentes. Ocorre que ele pressupe que, no lugar da internao, os juzes possam lanar mo de penas alternativas, como a liberdade assistida (com acompanhamento de um assistente social) ou o trabalho comunitrio  ambas de responsabilidade das prefeituras. Na maior parte do Brasil, no entanto, elas no passam de fico, segundo comprovou uma pesquisa recente do Conselho Nacional de Justia. Assim, apesar de a lei oferecer opes, na vida real os juzes tm s duas escolhas: a internao ou a impunidade. Pautados por essa realidade, muitos decidiam pela punio mais severa, com o justo argumento de que o trfico de drogas  um crime grave por representar uma ameaa  integridade da sociedade. Essa sada agora est bloqueada pela smula do STJ.
     No h dvidas de que a deciso levar a um aumento imediato do nmero de jovens envolvidos com o trfico. Para os chefes do crime, a mo de obra adolescente, agora com a expectativa da impunidade, parecer ainda mais vantajosa. Os menores so o principal canal de venda de drogas: so fceis, baratos e, agora, impunes. Essa smula pode estar juridicamente perfeita, mas vai aumentar o nmero de jovens no crime organizado, afirma o procurador de Justia de So Paulo Mrcio Srgio Christino. Mesmo quem defende uma segunda chance para os jovens criminosos, como o socilogo Guaracy Mingardi, acredita que a lei ter um efeito nefasto, inclusive sobre eles. H que levar em conta que grande parte dos jovens que sofrem internaes viram profissionais do crime. Mas tambm  preciso observar que essa smula far com que os jovens se sintam sem limites. E isso aumentar a sua participao no trfico. Uma visita  Fundao Casa (antiga Febem) mostra que essa participao j  assustadoramente alta. Na instituio, que abriga a maior parte dos menores infratores detidos do pas, o nmero de internaes por trfico triplicou de 2006 para c: saltou de 1180 para 3740 em 2012. Agora, com a deciso do STJ, ele vai cair. Mas a que preo.
CAROLINA RANGEL


7. NEGCIOS  UM BANHO DE LOJA NO INTERIOR
As pequenas e mdias cidades em breve tero mais shopping centers que as capitais. Com menos escadas e gente apressada, eles modificam os hbitos de consumo e lazer da populao.
TATIANA GIANINI

     O nmero de shopping centers em cidades do interior superar, pela primeira vez, o dos grandes centros urbanos. At o fim deste ano, segundo previso da Associao Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), haver 230 unidades em funcionamento nas capitais e duas a mais no restante do pas. O dado reflete o aumento mais acentuado da renda no interior, que tem recebido investimentos em agronegcio e minerao e indstrias interessadas em reduzir custos com infraestrutura e mo de obra. Metade do poder de consumo nacional atualmente est concentrada em cidades com menos de 300.000 habitantes, segundo estudo da consultoria Bain & Company. At o fim deste ano, estima-se que dezesseis shoppings sero inaugurados no interior. Em 2013 sero 29. Trata-se de um fenmeno de origem econmica, mas com grandes repercusses sociais. Para muitos moradores, a histria de seu municpio ter um novo marco temporal: antes e depois do shopping.
     Em Chapec, em Santa Catarina, os encontros de fim de semana tradicionalmente eram em casas de amigos e familiares, ocasies em que se comia churrasco e bebia chimarro. Desde outubro do ano passado, o mate  degustado nos corredores de um shopping e a carne assada enfrenta a concorrncia de restaurantes chineses, japoneses, italianos e de redes de fast-food. Chapec tem 200.000 habitantes, o dobro do que  considerada a populao mnima para receber um shopping  pela definio oficial: um centro comercial com administrao independente, mais de 5000 metros quadrados de rea locvel e, na maioria das vezes, estacionamento. Antes da inaugurao do Ptio Chapec, para fazer compras era preciso ir s lojas de rua, abertas apenas em horrio comercial, ou viajar 330 quilmetros at o shopping mais prximo, em Lages. O empreendimento facilitou a vida no apenas dos chapecoenses como tambm a dos moradores de oitenta municpios prximos. Eu costumava gastar horas rodando a cidade em busca do que precisava, diz a nutricionista Flvia Seil, de 34 anos. Hoje resolvo tudo em um s lugar. 
     O pblico do interior gosta de shoppings pelos mesmssimos motivos que o das capitais: eles so mais seguros, mais prticos e, em geral, mais agradveis do que as lojas de rua. Mas a verso interiorana do negcio costuma exigir algumas adaptaes. Uma diferena est nas praas de alimentao. No interior, os restaurantes no podem ser apenas um lugar para fazer uma refeio prtica e rpida, cheio de clientes com crach no pescoo preocupados em retornar ao trabalho. Nas cidades menores, as praas de alimentao tornam-se um local de lazer. As pessoas gostam de se sentar e apreciar um chope sem pressa, diz Rodrigo Perri, scio-diretor da rede de fast-food Vivenda do Camaro. Por isso, h mais restaurantes de shopping de interior com garons do que nas capitais. Nos cinemas, as cpias so quase sempre dubladas, para atender ao costume de um pblico que antes s assistia a filmes pela televiso. Outra diferena  que as escadas rolantes so raras. Isso porque, como o preo do metro quadrado fora dos grandes centros urbanos costuma ser baixo, as construes podem se dar ao luxo de ser mais horizontais.
     Para saber se um municpio tem potencial para ganhar um shopping, levam- se em conta o tamanho e a capacidade de compra da populao da regio. Parauapebas, no interior do Par, por exemplo, tem habitantes vidos por consumo por causa dos elevados investimentos da Vale e de dezenas de empresas que prestam servio  mineradora. O municpio, conhecido como dormitrio dos funcionrios da Vale, ganhou o primeiro shopping no ano passado, o Unique, com 126 lojas. Nossa expectativa era receber 180.000 pessoas por ms, mas a mdia de visitas tem sido de 300.000, diz o economista Dario Noronha, scio da Urbia, desenvolvedora e administradora do shopping, que j tem um plano de expanso para 2013.
     Por ser um setor que d um retorno rpido aos investimentos, no faltam crdito nem incentivos extras para os novos shoppings. Nas capitais paulista e fluminense, a demora para obter licenas de operao, por exemplo,  de trs anos. No interior, seis meses. Muitos prefeitos tambm abrem mo de taxas municipais. Em contrapartida, ganham com a gerao de empregos e a valorizao imobiliria. Chapec ficou mais cosmopolita com o shopping, comemora o prefeito Jos Caramori.

COMO NA CIDADE GRANDE
Com um crescimento da renda maior do que o registrado nas capitais, os pequenos e mdios municpios so os que mais recebem investimentos em centros comerciais.
SHOPPINC CENTERS INAUGURADOS DESDE 2002 (inclui as unidades que sero inauguradas at o fim do anos)
Capitais: 85
Outras cidades: 101
Aumento da renda mdia das famlias em 2012 (projeo)
Capitais: 15%
Outras cidades 23%.


8. CINCIA  BEM PREPARADOS. E AGORA?
Cientistas que se aperfeioaram nas melhores universidades do mundo, patrocinados pelo governo, voltam para casa e deparam com o de sempre: burocracia e falta de verbas.
NATHLIA BUTTI

     At 2015, 100.000 estudantes brasileiros, patrocinados pelo governo federal, tero vivido a experincia de trabalhar lado a lado com os mais preeminentes cientistas do mundo, nas melhores universidades estrangeiras. Esses jovens esto sendo garimpados entre os mais talentosos dos cursos de graduao ao ps-doutorado das universidades para fazer parte do Cincia sem Fronteiras, programa criado para preparar gente capaz de produzir conhecimento e inovao  altura dos melhores centros de pesquisa do mundo  e assim contribuir para reduzir o histrico atraso do Brasil nesse campo. Desde 1951, quando o pas passou a enviar alunos ao exterior, nunca se viu um plano to ambicioso. Parte da primeira leva de quase 6000 bolsistas que embarcou para o exterior comea a voltar agora. E aqui comeam os problemas.
     No se sabe como nem onde esses jovens crebros  e tudo o que eles absorveram em sua temporada fora  sero aproveitados. Certo  que, como seus pares  mesmo aqueles que compem a nata da academia , eles tero de enfrentar obstculos que h tempos vm refreando os avanos cientficos no pas.
     Um grupo de especialistas ouvidos por VEJA chama ateno para o fato de que o esforo e o dinheiro empreendidos pelo governo (o projeto deve consumir 3,4 bilhes at 2015) de pouco adiantaro se as cabeas em que ele investiu no tiverem o mnimo necessrio para dar o desejado salto agora, na volta. A maior dificuldade que espera os bolsistas  conseguir que, como eles, material e equipamentos tambm atravessem a nossa fronteira e cheguem aos lugares certos. Esbarramos sempre em um problema burocrtico recorrente.  preciso super-lo de uma vez por todas para que possamos competir de igual para igual com as potncias cientficas do mundo, refora a biloga Mayana Zatz,  frente do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de So Paulo. Desde 2010, ela e seu grupo tentam trazer da ndia para o Brasil molculas de DNA que permitiriam aprofundar o conhecimento de uma rara doena degenerativa do sistema nervoso, ainda sem cura. Mas a remessa j foi e voltou duas vezes sem que a alfandega brasileira a liberasse nem tampouco desse explicao alguma a respeito. A importao de reagentes  outra epopeia: leva at quatro meses, enquanto nos pases da OCDE o processo se conclui em, no mximo, uma semana. Por causa disso, nossos estudos esto sempre defasados, lamenta Sergio Verjovski, que lidera pesquisas sobre cncer no Instituto de Qumica da USP. As ideias que circulam no meio acadmico para avanar nessa rea so simples. Sugere Mayana: Nos Estados Unidos, o pas mais inovador do mundo, h um canal especial para que pesquisadores e fornecedores de reagentes negociem diretamente, usando um carto que autoriza as compras sem imposto nem burocracia. No seria difcil adotar um sistema parecido aqui. O governo j tem todos os dados.
     Garantir o mnimo de condies para que a cincia evolua  apenas o ponto de partida para tornar o Brasil atraente para os melhores alunos. A experincia mostra que  preciso ir muito alm.  fundamental dar incentivos concretos aos pesquisadores para que permaneam no pas, como fizeram China e Coreia do Sul. Nos anos 1960, 97% dos cientistas coreanos formados em universidades americanas se recusavam a retornar  Coreia, destroada pela guerra civil que havia se encerrado anos antes. O governo ento investiu para traz-los de volta, oferecendo-lhes altos salrios e posies de prestgio nos centros de pesquisa e tecnologia que comeavam a ser criados. As grandes empresas tambm fizeram movimento semelhante. Funcionou. Em vinte anos, 70% dos que haviam debandado j faziam o motor da economia coreana girar.
     Um programa com a dimenso do Cincia sem Fronteiras  que promete quadruplicar o nmero de bolsas no exterior  impe desafios inditos e complexos, que no podem ser enfrentados com improviso. Apesar da magnitude do projeto, o quadro de funcionrios do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq) e da Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior (Capes), por exemplo  as duas instituies encarregadas de selecionar os alunos, distribuir e monitorar as bolsas  continua inalterado. No  surpresa, portanto, que alguns estudantes tenham recebido o dinheiro da bolsa com atraso (problema j resolvido) e que outros se queixem de no conseguir obter informaes bsicas nesses rgos (ainda uma dor de cabea). Outro sinal de que o programa saiu do forno sem estar completamente maduro: os acordos com as universidades que encabeam o ranking mundial, como Harvard e Stanford, ainda no haviam sequer sido selados quando a presidente Dilma Rousseff rompeu a fita inaugural. S agora comeam a ser firmados  e  essencial que sejam. Como lembra o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educao e articulista de VEJA: No se pode baixar a rgua. Para dar certo,  preciso que nossos crebros convivam realmente com os melhores do mundo. Investir neles  na ida e na volta   pavimentar o futuro do Brasil. 

OS LABIRINTOS DA BUROCRACIA
A epopeia que  para um cientista brasileiro importar um simples reagente (em comparao com seus pares dos pases mais desenvolvidos da OCDE)

Quem cuida da papelada
BRASIL: O prprio cientista
OCDE: escritrios especializados

Nmero de etapas do processo
BRASIL: 9
OCDE: 9

Tempo at a encomenda chegar (mdia)
BRASIL: 4 meses
OCDE: 1 semana


9. GUSTAVO IOSCHPE  O SUICDIO ASSISTIDO DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS E O BOLETIM COLORIDO DA EDUCAO BSICA
     A famlia do meu pai chegou ao Brasil, com uma mo na frente e outra atrs, no comeo do sculo XX. A da minha me aportou aqui fugindo do nazismo. Em ambos os casos, portanto, muito depois da abolio da escravido. Caso a lei das cotas raciais e econmicas nas universidades federais seja sancionada, fico imaginando o que eu  e milhes de brasileiros com histrico parecido  diria ao meu filho se ele fosse excludo de uma vaga em universidade federal em benefcio de um negro ou indgena com pior desempenho acadmico. No haveria o que dizer. Pessoalmente, acredito que o critrio racial fere a isonomia, que  a base da democracia, e tisna o republicanismo com sectarismo. Racismo sempre  ruim, tanto o movido por dios quanto o por intenes nobres. Espero que os militantes da causa negra no se iludam: esse projeto no  uma grande vitria, mas uma cortina de fumaa. Em primeiro lugar, porque o racismo brasileiro no  causado por polticas governamentais que precisam ser revertidas, como era o caso americano, mas sim por atitudes de foro ntimo de uma parte dos nossos concidados. A concesso de cotas no mudar esse preconceito e corre-se o risco de exacerb-lo. E, segundo e mais importante, porque o efeito dessa lei no passa de migalha. Reportagem da Folha de S.Paulo calculou que o nmero de vagas reservadas nas universidades federais aumentaria em 70.000 com as cotas. A maneira de tirar milhes de negros da privao  melhorando a qualidade do ensino bsico.
     No fosse o componente racial no projeto de lei aprovado pelo Congresso  que destina 50% das vagas das universidades federais a alunos que cursaram o ensino mdio em escolas pblicas, a ser distribudas respeitando a diviso racial de cada estado , eu poderia dar-lhe o benefcio da dvida. Com o componente racial, sou contra.
H bons argumentos favorveis e bons argumentos contrrios  concesso de cotas a alunos da rede pblica de ensino, sem discriminao por raa. Os favorveis: a medida aumenta o acesso de alunos de baixa renda  universidade, promovendo equidade social. Tambm pode fazer com que pais da classe mdia baixa tirem seus filhos de escolas particulares e os matriculem em escolas pblicas. A pesquisa sugere o que esse pblico de maior renda e instruo dever gerar melhoria de qualidade na escola pblica. Os argumentos contrrios: alm de ferir a meritocracia, o que conceitualmente  lamentvel para uma instituio de ensino, a chegada de alunos despreparados s universidades federais poderia ameaar sua qualidade, acabando com boa parte da pouca pesquisa que o pas produz.
     O tempo dir se os efeitos negativos vencero os positivos.  uma questo mais emprica do que opinitica. Se essa lei for mais um prego no caixo das universidades federais,  importante notar que o eventual bito ter sido caso de suicdio assistido, no assassinato. Agora reitores e professores protestam contra essa lei especfica, mas as sementes do mal foram plantadas por eles. Porque nas ltimas dcadas as universidades federais se protegeram tanto, amealharam tanto dinheiro dando to pouco em troca  sociedade, que hoje no tm mais autoridade para esperar que essa sociedade as proteja.
     A marcha da insensatez comeou com o artigo 207 da Constituio, que declara a indissociabilidade entre ensino e pesquisa nas universidades. J seria estranho ter uma lei qualquer defendendo que o separvel , em realidade, inseparvel, mas consagrar isso na Constituio do pas  estapafrdio. O resultado prtico dessa lei  que 90% dos professores das federais so remunerados como se fossem pesquisadores em tempo integral, o que a grande maioria no . Se quase todos so tratados assim sem que precisem produzir pesquisa, obviamente h pouco incentivo para que se faa pesquisa de ponta. A maioria dessas instituies  pouco produtiva. No ranking mundial de universidades do Times londrino, no h nenhuma universidade federal entre as 400 melhores do mundo. Ainda h grandes professores e pesquisadores, mas as universidades federais exigem que toda a rede seja tratada de forma homognea, gerando dupla injustia: no valoriza os que merecem e sobrevaloriza os que nada ou pouco produzem. Esses ltimos ainda fazem greves, como a de agora. Essa estrutura torna o custo das universidades federais estratosfrico: seu aluno custa quase seis vezes mais do que o aluno do ensino fundamental, o mais caro entre todos os pases medidos. Finalmente, as federais resistiram e continuam resistindo a planos de expanso de vagas. Fazer universidades novas em zonas desprestigiadas pode, mas aumentar agressivamente o nmero de alunos nas universidades nobres, isso no. Assim, o oramento do Ministrio da Educao destina 23,7 bilhes de reais s federais e elas matriculam apenas 763.000 alunos, menos de 15% das matrculas totais do setor. Se a instituio das cotas tiver efeito adverso sobre a qualidade das federais,  provvel que haja mais um xodo de matrculas para o setor privado, fomentando o desenvolvimento de instituies de ponta nesse setor. Daqui a um tempo, no ser surpreendente se algum sugerir extinguir as federais e transferir todo o seu oramento para boas universidades privadas ou estaduais. Todas as leis e manobras que deveriam garantir a opulncia e complacncia das universidades federais tero causado sua imploso.
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     Na escola, havia um colega que no conseguia acompanhar o ritmo na maioria das matrias e era vtima de gozao da turma. Um dia, ao receber mais uma provocao de outro colega que tampouco era grande aluno, ele se revoltou: Tu, no! Vai descolorir o boletim antes de abrir a boca. O Ideb, o ndice de Desenvolvimento da Educao Bsica, que d uma nota de zero a 10 para a qualidade de todas as escolas pblicas do Brasil, mostra que o boletim do pas  um mar de notas vermelhas.
     O Ministrio da Educao, ao divulgar os resultados, enfatiza o (pequeno) progresso e o fato de 77% dos municpios terem atingido a meta. A verdade  que no h razo para contentamento. A mdia cai de 5,0 no 5 ano para 3,7 ao fim do ensino mdio. Quanto mais tempo nosso aluno permanece na escola, pior  o seu desempenho. As metas do Ministrio da Educao so ridculas, mais uma herana maldita do preclaro Haddad. Estipulam que, em 2021, o Brasil tenha o mesmo desempenho dos pases da OCDE... em 2006! Isso no  meta,  uma confisso de derrota. At 2021 esses pases tero evoludo muito, e os problemas de competitividade do Brasil, causados pelo nosso apago escolar, continuaro terrveis.
     Como sabem os leitores desta coluna, s acredito que teremos mudanas significativas quando a populao cobrar educao de qualidade. Polticos s atacaro o problema da educao com o devido empenho quando o mau resultado lhes custar votos. O Ideb 2011 pode ser um instrumento valioso nesse processo, porque pela primeira vez temos uma srie histrica que permite avaliar o desempenho de redes municipais em um mandato inteiro de prefeitos, justamente em ano eleitoral. Para dar minha pequena colaborao, as tabelas aqui mostram, entre as cidades com mais de 100.000 habitantes, quais as redes municipais que mais melhoraram e as que mais pioraram no pas, e tambm aquelas que obtiveram os melhores e os piores resultados absolutos. Em twitter.com/gioschpe voc encontra os dados completos do Ideb por municpio, por estado e pelo pas, desde 2005. Espero que ajude na hora de votar para prefeito.

REDES MUNICIPAIS (somente municpios acima de 100.000 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2011) COM MAIOR MELHORIA DE DESEMPENHO (2007-11)
MUNICPIO | ESTADO
1 Itabira | MG: IDEB 2007 3,4; IDEB 2011 5,1; Melhoria 2007-11 50%
2 Patos de Minas | MG: IDEB 2007 3,8; IDEB 2011 5,5; Melhoria 2007-11 45%
3 Garanhuns | PE: IDEB 2007 2,4; IDEB 2011 3,4; Melhoria 2007-11 42%
4 Lauro de Freitas | BA: IDEB 2007 2,5; IDEB 2011 3,5; Melhoria 2007-11 40%
So Joo de Meriti | RJ: IDEB 2007 2,5; IDEB 2011 3,5; Melhoria 2007-11 40%
6 Itapipoca | CE: IDEB 2007 2,8; IDEB 2011 3,9; Melhoria 2007-11 39%
7 Crato | CE: IDEB 2007 2,8; IDEB 2011 3,8; Melhoria 2007-11 36%
8 Bacabal | MA: IDEB 2007 2,6; IDEB 2011 3,5; Melhoria 2007-11 35%
9 Itagua | RJ: IDEB 2007 2,9; IDEB 2011 3,9; Melhoria 2007-11 34%
10 Belo Horizonte | MG: IDEB 2007 3,4; IDEB 2011 4,5; Melhoria 2007-11 32%

REDES MUNICIPAIS (somente municpios acima de 100.000 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2011) COM MAIOR PIORA DE DESEMPENHO (2007-11)
MUNICPIO | ESTADO
1 Alagoinhas | BA: IDEB 2007 3,4; IDEB 2011 2,9; Piora 2007-11 -15%
2 Londrina | PR: IDEB 2007 4,0; IDEB 2011 3,6; Piora 2007-11 -10%
3 Parnamirim | RN: IDEB 2007 3,5; IDEB 2011 3,2; Piora 2007-11 -9%
Viamo | RS: IDEB 2007 3,5; IDEB 2011 3,2; Piora 2007-11 -9%
5 Macei | AL: IDEB 2007 2,5; IDEB 2011 2,3; Piora 2007-11 -8%
Itapevi | SP: IDEB 2007 4,0; IDEB 2011 3,7; Piora 2007-11 -8%
7 So Gonalo | RJ: IDEB 2007 3,4; IDEB 2011 3,2; Piora 2007-11 -6%
Vitria da Conquista | BA: IDEB 2007 3,4; IDEB 2011 3,2; Piora 2007-11 -6%
Mogi Guau | SP: IDEB 2007 5,3; IDEB 2011 5,0; Piora 2007-11 -6%
10 Bag | RS: IDEB 2007 3,7; IDEB 2011 3,5; Piora 2007-11 -5%

REDES MUNICIPAIS (somente municpios acima de 100.000 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2011) COM MAIOR IDEB
MUNICPIO | ESTADO | IDEB 2011
1 Salto | SP | 5,7
2 Sorocaba | SP | 5,6
Americana | SP | 5,6
Sertozinho | SP | 5,6
5 Patos de Minas | MG | 5,5
6 Jaragu do Sul | 5,4
Joinville | SC | 5,4
Ribeiro Pires | SP | 5,4
So Jos dos Campos | SP | 5,4
10 Bento Gonalves | RS | 5,3
Conselheiro Lafaiete | MG | 5,3


REDES MUNICIPAIS (somente municpios acima de 100.000 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2011) COM PIOR IDEB
MUNICPIO | ESTADO | IDEB 2011
1 Macei | AL | 2,3
2 Olinda | PE | 2,6
Jequi | BA | 2,6
So Loureno da Mata | PE | 2,6
5 Vitria de Santo Anto | PE | 2,6
6 Salvador | BA | 2,8
Santa Rita | PB | 2,8
Igarassu | PE | 2,9
Recife | PE | 2,9
10 Campina Grande | PB | 2,9

Fonte: INEP


10. DROGAS  A COCANA NO LIMITE
As plantaes de coca na Amaznia peruana, na fronteira com o Brasil, ameaam transbordar para o lado de c, com a ajuda das novas mulas do trfico: os ndios.
KALLEO COURA, DO PERU

     A histrica incapacidade do Brasil de controlar o que atravessa suas fronteiras transformou o pas em um entreposto seguro para a cocana que, produzida em reas distantes dos pases vizinhos, ruma para os lucrativos mercados da Europa e dos Estados Unidos. Nos ltimos anos, no entanto, o mal se avizinhou e as plantaes de coca j esto, literalmente,  nossa porta. Na Amaznia peruana, a floresta vem sendo derrubada em ritmo alarmante para dar lugar ao cultivo da planta, hoje solidamente estabelecido a alguns metros da fronteira. Nos ltimos cinco anos, as franjas do territrio brasileiro abrigaram mais de 3000 hectares de coca, segundo dados oficiais da ONU. A polcia considera o nmero subestimado e avalia que a rea possa ser o triplo, o suficiente para produzir 100 toneladas de pasta-base da droga por ano. O plantio de coca na regio praticamente dobrou de tamanho de 2009 para 2010. Essa praga do jardim do vizinho ameaa agora se alastrar pelo Brasil. A Polcia Federal investiga a existncia de pelo menos uma plantao de coca em uma aldeia indgena em solo brasileiro. Temos a preocupao de que essa plantao se espalhe pelo territrio nacional. Fazemos sobrevoos constantes na regio e checamos as imagens de radar para monitorar isso. J encontramos ps de coca, mas no plantaes significativas ainda. Alm disso, para controlar o crescimento no Peru, temos o objetivo de fazer quatro operaes conjuntas por ano, diz Sergio Fontes, superintendente da PF no Amazonas.
     Os ndios ticunas que vivem no Peru so os principais responsveis pela expanso do cultivo de coca na Amaznia. O fato de ele se dar em plena selva  algo que surpreendeu os especialistas. No sabemos ao certo que tcnicas foram utilizadas para que a planta vingasse numa regio como essa, de baixa altitude, diz o dinamarqus Bo Mathiasen, representante regional da Unodc, a agncia da ONU para drogas e crime, para o Brasil e o Cone Sul. A reportagem de VEJA visitou uma dessas comunidades indgenas onde a droga  plantada, na aldeia de Cushillococha, no Peru, prximo ao Rio Solimes. A justificativa dos ticunas para explicar sua adeso ao negcio criminoso chega a ser simplria. No h mercado para a farinha de mandioca nem para a banana, que sempre plantamos aqui. J para a droga no faltam compradores. Alm disso, no recebemos Bolsa Famlia como no Brasil. Se no estivssemos plantando, outras pessoas o fariam, afirma o ticuna Joel Coelho Garrero, prefeito da comunidade. A relao entre ndios e traficantes extrapola a de produtor e comprador. Em muitos casos,  de cumplicidade. Um morador da regio admitiu  reportagem que sua aldeia j abrigou traficantes que l se refugiaram para escapar de uma operao da polcia peruana.
     As consequncias da expanso das plantaes de coca na fronteira, e o aumento da produo que adentra o territrio brasileiro, j podem ser medidas em nmeros. Para escoarem a pasta-base, os traficantes utilizam os mais de 25.000 quilmetros de rios navegveis por grandes embarcaes na Bacia Amaznica. Em torno deles, esto cidades em que a presena do poder pblico e da fora da lei  quase sempre tmida. O resultado  que, em muitas delas, a criminalidade explodiu. Em Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas e na trplice fronteira entre Peru, Colmbia e Brasil, o nmero de assassinatos chegou a 32 nos primeiros oito meses de 2012, ante dezessete em todo o ano de 2010.
     As implicaes nefastas do narcotrfico tambm chegaram s tribos indgenas brasileiras. Um dos maiores problemas aqui na nossa aldeia  o recrutamento para o trfico de drogas, diz o cacique Valdir Mendes, da comunidade indgena Umariau I. Ele conta que h um intenso movimento de ticunas peruanos e colombianos ligados ao crime que vm para as aldeias brasileiras com o objetivo de aliciar os indgenas daqui. Como os ndios conhecem os rios da Amaznia como ningum, acabam se transformando em mo de obra qualificada para o trabalho de transporte da droga  as infames mulas. O ticuna Raul Curico aceitou trabalhar para os traficantes. Foi preso em flagrante com 2,4 quilos de pasta-base em plena terra indgena. Enquanto um pai de famlia na aldeia no ganha mais que 600 reais por ms, quem trabalha para o trfico chega a receber 1000 reais por quilo de pasta-base transportado at Manaus, diz. O problema  que muitas vezes a pessoa faz o servio e volta de mos abanando. Que ndio vai reclamar com traficante armado de fuzil?, pergunta. Devido  ausncia de policiamento, alguns criminosos acabam se instalando dentro das prprias aldeias ou convencem algum indgena a se tornar dono de uma pequena boca para abastecer o consumo local. H um crescente envolvimento dos ndios com o narcotrfico. S a Funai e o Ministrio Pblico Federal no querem enxergar isso, afirma um delegado federal.
     A porosidade das fronteiras brasileiras  uma questo que sucessivos governos prometeram tratar como prioridade. A ameaa de uma invaso macia do territrio pelas plantaes de coca comprova agora que tudo no passou de promessa.

AS CIFRAS DO NARCOTRFICO 
Em todo o mundo, o trfico de drogas  o mais lucrativo negcio para o crime organizado, superando a venda de marfim e at a comercializao de produtos falsificados. A cada fronteira que se cruza, o valor da droga aumenta exponencialmente
Fontes: Escritrio das Naes Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), Polcia Federal e Departamento Estadual de Investigaes sobre Narcticos de So Paulo.

Valor do quilo da pasta-base,... (em reais)
Nas grandes capitais do Sudeste: 8000
Em Tabatinga, no Amazonas: 3600
No Peru: 2000

... do quilo da cocana... (em reais)
So Paulo: de 20.000 a 30.000
Estados Unidos: de 100.000 a 200.000
Europa: de 150.000 a 300.000

... e do faturamento global anual do narcotrfico: 645 bilhes de reais, o equivalente ao PIB da Venezuela.

A FRONTEIRA DA COCA
Nos ltimos anos, a Amaznia peruana vem se consolidando como uma regio cocaleira que abastece o narcotrfico. Algumas plantaes j esto a menos de 100 metros do Brasil, o que tem preocupado as autoridades sobre a possiblidade de o plantio cruzar a fronteira
Fonte: Escritrio das Naes Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) para o Peru e o Equador.

rea de cultivo de coca prxima ao Brasil (em hectares)
2006: 968
2007: 1065
2008: 1209
2009: 1666
2010: 3169
CRESCIMENTO DE 227%


11. MEMRIA  HERI DO CINEMA VELOZ
     Tony  ou Anthony  Scott foi ator principal de Menino e Bicicleta, o primeiro curta-metragem do irmo mais velho, Ridley, em 1965. Sua carreira posterior foi toda atrs das cmeras: o cineasta ingls especializou-se na direo de filmes de ao, protagonizados por machos dures (mas no brutamontes) s voltas com mquinas velozes  no ltimo deles, Incontrolvel, Denzel Washington, que trabalhou em outros quatro filmes de Scott, defrontava-se com uma locomotiva desgovernada. Ele mesmo um amante da velocidade e de alpinismo, Tony Scott optou por um fim espetacular e inexplicvel: no domingo 19, jogou-se do alto de uma ponte de 56 metros, em Los Angeles. Tinha 68 anos. Aventou-se que o suicdio teria sido motivado por uma doena terminal, mas Donna Scott, viva e me dos dois filhos do cineasta, desmentiu a informao. Diretor de comerciais nos anos 70, Scott estreou no cinema com Fome de Viver em 1983. O estiloso filme de vampiros estrelado por Catherine Deneuve, Susan Sarandon e David Bowie foi mal nas bilheterias, mas ganhou um certo status cult. Atraiu a ateno dos produtores Don Simpson e Jerry Bruckheimer, que recrutaram Scott para um filme sobre uma escola de elite para pilotos de caa. Com o jovem Tom Cruise como astro, Top Gun  Ases indomveis celebrava a velocidade, a tecnologia, o poder blico e o pop ruim (a grudenta Take My Breath Away estava na trilha). Tony Scott tambm foi prolfico na produo. Em parceria com o irmo Ridley, produzia The Good Wife, uma das melhores sries da TV aberta americana. A comparao com a obra do irmo no lhe  favorvel: o Ridley de Alien e Blade Ranner  um estilista da imagem. Mas Tony Scott dirigiu filmes de ao marcantes. Fez seu barulho. At o fim. 
BRUNO MEIER


12. VIDA DIGITAL  JOGO BOBO TEM VIDA CURTA
Games para smartphones, tablets e redes sociais se popularizam rapidamente por ser fceis. Mas a falta de desafios maiores tambm os leva a quedas metericas.
FILIPE VILICIC

     Jogos que alcanam sucesso rpido em celulares, tablets e no Facebook seguem uma frmula parecida. No  preciso aprender comandos complexos para comear a jogar. Bastam gestos intuitivos, como toques na tela. As partidas costumam ser interminveis, mas  rpido completar desafios. S que a mesma receita que leva esses games ao pice da popularidade agora se mostra fatal. Descobriu-se que jogo bobo tem vida curta. Um exemplo  o Draw Something (desenhe algo, em ingls), que reinventou para o meio digital o jogo de tabuleiro Imagem & Ao e que h cinco meses era a bola da vez em iPhones e iPads. O aplicativo para tablets e smartphones virou sensao global do dia para a noite. Ultrapassou 1 milho de usurios em nove dias, atingiu mais de 50 milhes de downloads e, em seis semanas, tornou multimilionrio seu criador, que o vendeu por 210 milhes de dlares para a principal empresa do gnero, a Zynga. O game caiu no esquecimento ainda mais rapidamente. Desde maro, o nmero de pessoas que jogam o Draw Something todos os dias despencou de 14 milhes para 2,5 milhes. O declnio foi um dos motivos da desvalorizao da Zynga, cujas aes na bolsa perderam 70% do valor desde dezembro, quando a empresa fez seu IPO (oferta pblica de aes).
     O Draw Something no  um caso isolado. Pelo contrrio,  a regra. Principais esperanas da Zynga, os jogos da linha Ville (FarmVille, CityVille, CastleVille, entre outros) perdem jogadores em ritmo acelerado. Em trs meses, debandaram 20% dos usurios. Disse a VEJA o consultor especializado na indstria de games Michael Pachter, da americana Wedbush Securities: Os jogos de dispositivos mveis e do Facebook perdem logo o encanto por no oferecerem
novos desafios. A soluo seria inventar um jogo toda semana. Isso  difcil, j que ainda estamos entendendo o pblico desses games. Criado em 2009, o FarmVille atingiu 30 milhes de jogadores. Hoje, tem 3 milhes. At maro, o Temple Run, desenvolvido pela Imangi Studios e lanado em agosto do ano passado, parecia ter surgido para ficar. O enredo  simples: controlar aventureiros em busca de um totem em um templo parecido com o dos filmes de Indiana Jones. Foi baixado mais de 100 milhes de vezes (70 milhes em apenas sete meses), mas os downloads diminuram pela metade e verses novas do Temple Run no vingaram por repetir a frmula do original. A febre do momento  o SongPop, uma disputa de adivinhaes do nome de msicas. So mais de 15 milhes de jogadores online. S que o nmero se estabilizou, e tudo indica que comear a cair.
     A lgica que rege esses games  inversa  dos jogos de console, como os do Xbox 360, da Microsoft, e os do Wii, da Nintendo. Os videogames tradicionais apostam em sagas duradouras e progressivamente mais complexas e difceis de terminar. As aventuras do encanador Mario, cone da Nintendo, existe h trs dcadas e est longe de perder flego. O sucesso da saga de tiro Call of Duty se mantm desde 2003 e cada nova verso da srie que chega s lojas quebra recordes de vendas. O consultor Michael Pachter explica o processo de renovao desses jogos: No so para jogadores sem experincia. Demora-se horas para aprender os primeiros comandos e meses para superar as fases repletas de oponentes. Quando se chega ao final, j h um novo game da srie nas lojas, ainda mais desafiador. As premissas das sagas mais famosas de videogames no mudam. A chave est na dificuldade, que s aumenta a cada captulo. Verses desses jogos complexos no vingam no universo de smartphones e tablets, com telas pequenas e comandos que se limitam  ponta dos dedos. O Call of Duty tentou vrias vezes emplacar uma verso para celulares, sem sucesso. Compare os videogames ao cinema, com filmes complexos, pblico especfico e sries de longa durao. Em contraposio, os games do Facebook e dos dispositivos mveis so como a TV, em que os programas so de fcil entendimento e tm de se renovar sempre, disse a VEJA o engenheiro Kostadis Roussos, chefe dos desenvolvedores da Zynga. O desafio  conseguir inovar e lanar games que agradem aos jogadores no mesmo ritmo em que eles enjoam dos anteriores  um ciclo que dura poucas semanas.

DRAW SOMETHING
pice: maro de 2012
50 milhes de downloads. Vendido por 210 milhes de dlares, chegou a ser o jogo mais popular para smartphones
Hoje: o nmero dirio de jogadores despencou de 14 milhes para 2,5 milhes
Quanto tempo permaneceu no topo: trs meses

TEMPLE RUN
pice: maro de 2012
70 milhes de downloads. Tambm chegou a ser o programa mais popular para iPhone
Hoje: os downloads diminuram pela metade e ele nem figura entre os cinquenta maiores aplicativos da App Store
Quanto tempo permaneceu no topo: sete meses

FARMVILLE,
CITYVILLE, 
CASTLEVILLE...
pice: de 2009 a 2011
30 milhes de jogadores por game. O FarmWille foi o mais popular jogo de redes sociais
Hoje: o nmero de jogadores no ultrapassa 3 milhes por ttulo
Quanto tempo permaneceu no topo: dois anos

O SUCESSO DO MOMENTO
O SongPop, game de adivinhao do nome de msicas,  o queridinho em smartphones. Mais de 15 milhes de pessoas se divertem com ele, mas esse nmero j se estabilizou

O SOBREVIVENTE
Pssaros furiosos numa batalha com porcos  o enredo bsico de Angry Birds, o nico game que no perde popularidade em dispositivos mveis e redes sociais. Lanado em 2009, superou 1 bilho de downloads.

